11 julho 2003

D’ARTE, PAIXÃO & POESIA

Num dos primeiros escritos da sua juventude (1796/1797), Hegel afirmou que «(...) já não haverá nenhuma filosofia, nenhuma história, apenas a arte poética sobreviverá a todas as restantes ciências e artes». Apesar do risco da afirmação, no contexto e no âmbito da distância temporal, esta intuição profética do jovem Hegel, não é ainda realizável, não está em consonância com este tempo de perplexidades, confusão geral, falta de sentido e “algum” vazio espiritual. Contudo, há algumas boas pistas, determinados trilhos que nos permitem afirmar que a reconciliação do homem e do universo pela criatividade e pelo artístico, está sendo preparada e que as próximas gerações irão assistir a um regresso - desejado e necessário - à Arte por excelência (uma espécie de deificação do Homem). Deixemo-nos de artimanhas progressistas e de fixações cibernéticas, tecnológicas e afins, a humanidade, em toda a sua essência, plenitude e dignidade, só continuará sendo possível pela Arte.
As “aventuras” criativas (uma aventura é inicialmente uma surpresa e depois uma memória) serão património mítico/cultural e farão parte do imaginário de um povo intelectualmente ousado, se forem dignamente vividas. Viver-em-Arte (criando, fruindo e partilhando Arte) é fundir-se no Todo-Absoluto, é fazer pontes com os materiais estéticos da alma, reconciliando o apolíneo e o dionisíaco da Vida. Toda a Arte liberta e aproxima do essencial. A Eternidade não poderá ser, decerto, uma doença das ideias, ela revela-se na Arte verdadeira - a Arte despretensiosa, autêntica porque espontânea mas insatisfeita, sentida e amadurecida, dela brotará “infalivelmente” uma significativa revolução cultural e espiritual. O efémero, o passageiro, o banal, é próprio da radicalização dos opostos, é peculiar dos que desistem de aprofundar e descobrir poetica-mente os pequenos-grandes enigmas da sua criatividade, muitas vezes adormecida pelo embalar conceptual e conservador das ideias feitas, fáceis e indiferenciadas.
A insatisfação-permanente deve ser o critério máximo. Rasgar deve ser o gesto mais natural de um escritor, de um poeta. Contudo, escrevam e rasguem. O que está dito e “registado” ficará sempre aquém do muito que falta por dizer. Temos todos a responsabilidade quotidiana de des-construir para construir a Vida - esse mistério tão rico de contradições e tão salutar de diferenças. Nem que seja apenas uma intenção, um sentimento, uma palavra ou um poema que se destaque - valerá sempre a pena Dizer ao mesmo tempo que se procura coerência, sentido e autenticidade - alguém, poderá fazer disso que se diz e vive, a motivação e o ânimo para uma reveladora e interessante caminhada espiritual. «O caminho faz-se caminhando» e o escritor, o poeta, faz-se escrevendo, sentindo, amando, conquistando o Impossível a fim da máxima espiritualidade. Se chegares ao fim de uma caminhada, à beira de um abismo ou às proximidades de uma barreira, não fiques lá apenas a contemplar as aporias do mundo e a olhar os trilhos já por outros construídos e palmilhados - não deixes de usar o sonho, a vontade e a imaginação e continua a caminhada até ao fim, ultrapassando os obstáculos com os meios próprios da tua criatividade. Se te perderes na selva do mundo, faz mais um caminho, se for um caminho diferente mas acessível, mais cedo ou mais tarde, muitos por lá irão passar.