10 julho 2003

ESTÓRIAS E HISTÓRIAS

Sabemos que há estórias e histórias. Dicionaria-mente falando, diremos que aquelas são narrativas de ficção, factos sem o serem, puramente imaginados, romanceados; estas, são factuais, directamente observáveis ou baseadas em documentos e testemunhos, traduzindo-se ambas em contos, crónicas, novelas, fábulas, enfim... narrativas.
O que será mais real: nós ou as nossas imagens?, a Vida ou a Literatura?, as nossas histórias ou as nossas estórias?
Oscar Wilde escreveu duas frases que, na minha idiossincrasia, traduzem bem a necessidade e a importância espiritual de uma “outra vida” (ou dimensão desta) talvez mais autêntica e real que aquela a que estamos habituados e à qual estamos presos julgando – por vezes – ser a única: «a literatura antecede sempre a vida»; «o máximo na literatura é a realização daquilo que não existe». Podemos ser e ter tudo em Literatura, sobretudo aquilo que julgávamos não existir. “O que (ainda) não existe” – para aqueles que perderam a capacidade de sonhar, de imaginar - é a outra dimensão da Vida. Quando narramos aos outros e a nós mesmos, os nossos desejos, utopias, sonhos, impossibilidades e vontades radicais, estamos a criar, como deuses – no Olimpo da Literatura - aquilo que “não existia”. Também Fernando Pessoa(s) assumia, em termos de Vida-vivida, com mais autenticidade e sentido(s), pelo fingimento e com as máscaras (uma outra forma de imaginar e criar mundos), o primado da Vida-Literatura: «a literatura como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta».
Escrever, seja o que for, com coerência, paixão, sentido(s) e capacidade de inovação, é cada vez mais difícil. Vivemos rodeados de verborreias televisivas e outras de toda a espécie (sobretudo no plano da Educação e Ensino) – arriscamo-nos ao esgotamento e à “de(s)ignificação” dos rituais, do encanto, dos mistérios e da magia do Ver-a-Ler, das palavras-luz através das quais se vê o mundo – escre(ver) é ver, ver é contar... Recriar o mundo pela narrativa, é talvez uma das tábuas de salvação do Homem.
Por isto e por algo mais que sinto mas que não consigo dizer (dar-a-ver) porque há palavras que estão cansadas e doentes, agradeço a todos os escritores do mundo, oftalmologistas de palavras, a re-criação/re-visão deste mundo e a criação/visão de outros mundos.