04 dezembro 2003

ENTRE(VISTA) - «DA LITERATURA & AFINS»

Helena Sousa Freitas – O público português é muitas vezes referido como não tendo hábitos de leitura e diz-se que os novos autores escrevem para a gaveta. Concorda?

Ângelo Rodrigues - O público português lê muito pouco. Há uma grande resistência à leitura e esta é substituída pelo multimédia, sobretudo a Televisão e o vídeo... Os fracos hábitos de leitura têm várias causas e provavelmente a Escola não é a principal. Creio que - em parte - o “embrutecimento literário e cultural” do nosso povo se deve sobretudo à Comunicação Social que temos, em particular a Televisão. Repare-se: só se vê futebol e política e pouco mais. É quase por favor que se fala de um autor, de um livro, e de um qualquer evento à volta de um livro ou de um autor.
Quanto aos autores que escrevem para a gaveta, tal procedimento faz parte do princípio destas coisas, isto é, publicar, partilhar com os outros, é sempre um acto de coragem, de ousadia mas também de espera. Costumamos dizer que o tempo é o melhor amigo em questões de Literatura. É necessário que os trabalhos amadureçam. Quantos vezes nos precipitamos e no dia a seguir quase que não nos reconhecemos nas “coisas” que fazemos. Escrever para a gaveta é o primeiro passo – é sagrado. Se os trabalhos forem realmente interessantes, mais cedo ou mais tarde irão ver a luz do dia.


Excerto de uma entrevista a Ângelo Rodrigues no Sem Mais Jornal em 25 de Fevereiro de 1999 pela jornalista da Agência Lusa, Helena Sousa Freitas.