28 fevereiro 2004

ENTRE(VISTA) - «DA LITERATURA & AFINS»

Helen Sousa Freitas – Apesar do pouco sucesso da literatura no nosso país, falar de livros e da escrita ainda enche auditórios. Tal é o caso do “Jornal Falado da Actividade Literária”, dos debates “Cem livros do Século”, no CCB e do “Com os Livros em Volta”, na Culturgest. Para além das sessões de divulgação de poesia que ocorrem um pouco por todo o país, sempre com casa cheia. Consegue explicar-me este paradoxo?

Ângelo Rodrigues - Efectivamente, parece haver uma situação paradoxal quando constatamos que eventos relacionados com a divulgação do livro estão repletos de gente, e, na volta, as vendas de livros relacionadas com tais eventos, não correspondem a tal aparato. A minha experiência na produção e organização de lançamentos de livros corrobora o que disse pois constato cada vez mais (é claro que há excepções), que nem sempre “muita gente” num evento literário é sinónimo de vendas. As pessoas muitas vezes vão a um evento de natureza literária apenas para serem vistas, “meterem” conversa com uma figura mais-ou-menos-pública, levar um vestido novo... quantas vezes para casar a filha com um modelo feito à pressa, um actor de telenovela que também aparece ou um intelectual de meia-tijela. Ele há gente para tudo!
É claro que não consigo nem quero explicar o paradoxo que me coloca: ir ao CCB é fino. Dizer a um amigo que estivemos na Culturgest dá a sensação de que se é culto...

Excerto de uma entrevista a Ângelo Rodrigues no Sem Mais Jornal em 25 de Fevereiro de 1999 pela jornalista da Agência Lusa, Helena Sousa Freitas.