25 maio 2004

PEQUENA HOMENAGEM À MEMÓRIA DO MEU AMIGO - POETA E PROFESSOR - ABÍLIO SAMPAIO (falecido a 30 de Abril deste ano)

Recensão ao livro RESTOLHAR DE FRÁGUAS E FRAGAS (poesia) de Abílio Sampaio, Ed. Minerva, 2001, 72 pp.

1. É difícil “falar” da poesia de Abílio Sampaio por três razões: a primeira, por ser um grande amigo; a segunda, por ser um grande poeta e declamador – que podemos nós dizer a não ser enaltecer(!?); a terceira, tem a ver com o sentido absoluto e radical de uma obra poética – a inutilidade da opinião, da “crítica”, da “teorização”. Diz Eduardo Lourenço que, «em sentido radical não há nada a dizer de um poema pois é ele mesmo o dizer supremo».

2. Fruir a aventura poética que constitui o livro em presença, é um privilégio nosso. Dizer sobre e da Poesia, é sempre difícil, problemático, discutível, relativo; arriscamo-nos quase sempre à arrogância das frases-feitas e às previsibilidades comuns; contudo, uma “ideia diferenciada” nos fica do imenso prazer desta leitura, querendo a mesma significar que a atitude poética deste autor, aponta para a memória-do-futuro, para uma ilimitada e fascinante possibilidade de interrogação e de problematização. Podemos afirmar, com a legitimidade da nossa humildade perante o “há qualquer coisa”, que a poesia de Abílio Sampaio é também um filosofar espontâneo, despretensioso e autêntico, que reabilita o espanto do Homem perante o Grande Mistério da Vida e da Morte.

3. A partir deste livro, é impossível não afagar com doçura-áspera, as Fráguas e as Fragas da Natureza e dos homens.

4. Abílio Sampaio é irónico, corrosivo, sarcástico, doce, harmonioso, romântico, melodioso, desbravador, aventureiro, sonhador... lembra-me Nietzsche, compreende (e vive) o mundo como uma grandiosa obra de Arte. Este livro é a «Origem da Tragédia» em poesia.

5. Eis uma poesia dissolvente de razão e de paixão – privilégio dos artistas e poetas. Razão e Sentimento: o que os poetas procuram, está para além desta clássica e cansativa dicotomia.

6. A poesia de Abílio Sampaio é uma chave que tenta abrir a porta da Eternidade. Queremos ser imortais. A partir daqui, a confusão é total. Não há palavras, não chegam as palavras. O que podemos afirmar(!?) Valerá a pena dizer alguma coisa(?) Ou cremos ou não cremos (ou) não queremos.

7. (...) vitalidade, embriaguez, êxtase, diferença, mudança, encantamento; mas... não acreditem em mim. As almas têm fome. Comam este livro!

8. O poeta não poetiza apenas, é ele próprio o poema.

9. Estamos perante uma poesia que põe em prática a redenção do Homem pela reconciliação do Bem e do Mal.

10. Em Abílio Sampaio a máxima deixa de ser o «Conhece-te a ti mesmo» socrático e passa a ser o «Excede-te a ti mesmo» abiliano. A medida e a desmedida. Apolo e Dioniso. A Arte é poderosa! A Arte é, nesta vida, a preparação para o Eterno. O Abílio poderá entender isto como uma “treta”, mas sabemos que os poetas, os artistas, não têm, muitas vezes, consciência do alcance da sua obra. Ensinou-nos Nietzsche que o aborrecimento do mundo é superado pela vivência da Arte. O que seria de nós sem os poetas(!?) Abaixo o «Maria vai com as outras» e o angustiante marasmo do mundo!

11. Obrigado poeta(!), contigo, o mundo espiritualizou-se um pouco mais.

1 comentário:

Anónimo disse...

Ex.mo. Estava eu a ver o debate da RTP1 sobre as aulas de substituição e referiram o facto de haver sempre Professores que marcam os alunos.

O meu Prof. de Filosofia do 11º ano em Beja, que se chamava Abilio Sampaio, foi para mim uma referência absoluta.

Estaremos a falar da mesma pessoa?