29 junho 2004

DO AMOR

Amamos(!), contudo, não sabemos, não conseguimos e ninguém consegue dizer o que é o Amor; é como a teologia do negativo, por mais que tentemos dizer o que Deus é, mais aquém ficamos da sua essência, da sua verdade.
Sabemos-sentindo que o Amor (é) uma mediação. Para se entender-vivencialmente a medição de que falamos, basta recordar Saint-Exupéry e o diálogo entre o Principezinho e a raposa.
O Amor (é), provavelmente, o melhor que nos acontece pois sem esta nobre e sublime dimensão da Vida, não é possível a Eternidade e tudo o que isso enigmaticamente significa; assim sendo, diríamos: há humanidade porque há-Amor! A humanidade, no sentido mais ético (Bem) e estético (Beleza) do termo, traduz as relações (mediações) entre os homens e entre estes e todos os seres.
O errante Eros/Amor (filho de Poros – astuto e engenhoso e de Penia – pobre e carente) (é) aquele que se sente inacabado e que, por isso, vai (de paixão em paixão) em busca do que lhe falta a fim de se “completar” e de voltar a ser um-só, mais rico, mais feliz porque dois sendo um – um mais um igual a um – algo tão profundo e misterioso quanto o dogma da Trindade dos cristãos. E sobre esta demanda e fusão amorosas, o melhor é ouvir, com os ouvidos da alma, estes sublimes versos de Brak-Lamy: «Fusão mais longa e repleta / Na troca de tu e eu / Que agora já mais não são / Que um só que se perdeu. (...) Emoções que nos transportam / Para além de toda a matéria / Na busca do infinito / Que é onda, nuvem etérea».
Um pouco à maneira de Platão (Symposion), só poderemos anuir na ligação entre o Amor, a Beleza e o Bem. Assim, amar algo ou alguém em particular, será sempre amar o melhor, o essencial, o verdadeiro, o Bem; por outro lado, amar algo ou alguém não é mais do que a conquista da Eternidade prometida – qualquer céu ou qualquer paraíso terá de ser feito da mesma “matéria” do Amor, isto é, de Beleza e de Bem.
É urgente a apologia vivencial do Amor sem outra pretensão que não seja a de “compreender” o essencial da humanidade em qualquer das suas dimensões (psicológica, fisiológica, teológica, filosófica, cosmológica e sociológica).
Um ensaio, um estudo, uma definição, o que quer que seja neste âmbito, pouco ou nada dirá de verdadeiro e de essencial sobre o Amor – tenta explicar mas não compreende – só compreendemos (isto é, incluímos em nosso coração) quando nos apaixonamos, quando sentimos. Assim, falar de AMOR, só é possível pela Poesia que é irmã gémea deste – o semelhante só pelo semelhante pode ser conhecido. E fazemos nossas as palavras de Pier Paolo Pasolini: «Há coisas que só se vivem, ou então, se insistimos em as dizer, é necessário fazê-lo em Poesia».

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