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"escrever ANTERO de QUENTAL", 30 autores, Edições Colibri, 2024 - "Avulsas Impressões" por Ângelo Rodrigues (coordenador literário do projeto)
AVULSAS IMPRESSÕES
por Ângelo Rodrigues
www.angelo-rodrigues.webnode.pt
Em busca do Absoluto e da Luz
por um “génio que era santo”
«O universo só
dura pelo bem que nele se produz. Esse bem é às vezes poesia e arte. Outras
vezes é outra coisa. Mas no fundo é sempre o bem e tanto basta.»
ANTERO DE QUENTAL, Cartas II (1881-1891) –
Organização,
introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa, 1989,
Universidade dos Açores, Editorial Comunicação
«(…) enquanto
não domar os nervos e a imaginação, e não tiver transformado o meu antigo
temperamento de poeta no de filósofo, não posso começar a grande obra.»
ANTERO DE QUENTAL, Cartas II (1881-1891) –
Organização,
introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa, 1989,
Universidade dos Açores, Editorial Comunicação
«Na mão de Deus, na sua mão
direita, / Descansou afinal meu coração.
/ Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita. (…)
// Selvas, mares, areias do deserto... / Dorme o teu sono, coração liberto, /
Dorme na mão de Deus eternamente!»
Antero
de Quental, in "Sonetos"
1.
Caros autores, obrigado por serem quem são e
por estarem connosco nesta nova ”aventura literária” das Edições Colibri. Uma
saudação especial aos autores que integram a coletânea “escrever CAMÕES” (primeira
obra desta coleção) e que continuam mais uma vez nesta coletânea “escrever
ANTERO de QUENTAL”. É um renovado prazer, um gosto e um privilégio, poder
contar convosco neste novo projeto literário assumidamente diferenciado, eclético
e “de culto”, que pretende não só, mas também, homenagear, compreender, reconhecer,
refletir, problematizar, especular e celebrar o nascimento, o percurso de vida
e o considerável legado do diferenciado, ousado, inovador, inquieto, “atormentado”,
“panteísta”, multifacetado e peculiar poeta/sonetista, esteta, ativista
sociopolítico, revolucionário, jornalista e pensador Antero de Quental, figura central
— e de topo — da designada “Geração de 70” que teve origem em Coimbra (Movimento académico do século XIX que
veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à
literatura – Wikipédia). Evocaremos
por aqui — de forma mais ou menos apaixonada, autêntica quanto possível, informal
e livre — o intelectual e ativista sui generis que, com outros como ele
(alguns dos quais que abaixo se refere), influenciaram Portugal à época, e,
porque não dizê-lo, com um sentimento de gratidão e de orgulho, que sentimos
que tal influência — esta nossa “herança” sociopolítica, cultural, poética, estética
e filosófica — foi como que uma “lufada de ar fresco”, uma mais-valia que fez
catapultar o atrasado, desalinhado e ignorante Portugal para a modernidade,
conceito este a ser compreendido à luz deste nosso tempo, que se quer desconstruído
e descodificado, à medida que tentaremos — também com a preciosa e inestimável
ajuda/apoio dos nossos autores, que dão voz e alma a este projeto — compreender
o legado de Antero que foi também o poeta-filósofo, ou o filósofo-poeta, que, à
semelhança do sábio, grande e inquieto filósofo Sócrates — da antiguidade
clássica —, revolucionou a mentalidade da época e espicaçou — com ousadia e
coragem — “as consciências adormecidas no sono fácil das ideias feitas”. E
saibam também caros leitores que Antero viveu numa época de tacanhez, de
ignorância, de imbecilidade (e, infelizmente, continua a não ser muito
diferente ainda hoje), e também por culpa desse contexto, tenha resultado, como
nefasta consequência — assim entendido para a maioria dos que vão conhecendo um
pouco melhor a vida do autor —, o seu desespero e frustração que se
consubstanciou na “tragédia” do suicídio (que parece ter sido pensado e
preparado ao minuto), como que a dizer-nos que estava cansado e farto de tanta
incompreensão, de tanta ignorância e imbecilidade, e a necessitar de sair deste
mundo incoerente em busca de novos e mais aceitáveis mundos (e alternativas de
vida); contudo, mais uma vez à semelhança do já referido Sócrates da
antiguidade clássica, também este sábio homem supunha “e acreditava” que iria
para um “mundo melhor”, pois a Morte é uma porta mágica que nos deixa sair, nos
liberta e orienta para algo que não sabemos o que é, mas que queremos acreditar
(e desejar) que é bom (talvez seja, muito provavelmente, o reino do Bem, do
Belo e da Justiça, afinal de contas, o reino do Amor). Antero de Quental tinha
— de facto — um fascínio e uma espécie de “encanto” e de admiração pela Morte
que é, digamos assim, a sublimação suprema. Estamos em crer que se Antero cá
voltasse hoje, iria com certeza considerar e confidenciar-nos que o seu
“sacrifício” não foi totalmente em vão. Admitamos pois, que sem o contributo de
Antero e da designada “Geração de 70”, que ele muito galvanizou e fez crescer,
de certo que a nossa “herança” teria sido — a muitos níveis — muito mais pobre.
Assim, um povo, um país, uma nação que se preze deve estimar e honrar aqueles
que ensinaram a sair da mesmice e da ignorância (pois ele foi também o pedagogo
por excelência) e ajudaram a construir um país mais culto, e, sobretudo por
isso, Antero merece todo o nosso respeito, reconhecimento e todas as apologias
(sendo que o principal reconhecimento/apologia deve — a nosso ver — consubstanciar-se
na leitura, na fruição e compreensão da sua extraordinária obra poética,
filosófica e ético-política). O que conhecemos da sua desconcertante, atribulada
e inquieta vida, bem como da obra/legado que nos deixou, espelham/evidenciam bem
a demanda permanente pela compreensão, pela busca de sentido e de significado
da existência, da “condição humana” — com muita inquietação espiritual e “almífica” à
mistura —. Antero foi um original e ousado desbravador do Humano e levou a
máxima do “Conhece-te a Ti mesmo” ao limite. Mais a baixo, neste despretensioso,
quase-coloquial e pouco ortodoxo “texto”, de “avulsas impressões”, iremos arriscar
especular um pouco (“mandar o barro à parede” a ver o que acontece) sobre
alguns temas/assuntos/situações/curiosidades/problemáticas que sabemos de
antemão que alguns estudiosos/pesquisadores-investigadores-académicos-e-afins (e
também puritanos, talvez demasiado ortodoxos) de Antero terão dificuldade em
aceitar e compreender (provavelmente por falta de evidências/registos objetivos
e melhor reflexão e fundamentação da sua obra), mas, ainda assim, arriscaremos
e ousaremos a nossa “interpretação”, realizando o melhor que nos for possível,
um caminho de exegese literária/filosófica/talvez-mística que também se
quer holística, e talvez também o seja — embora menos — heurística e
hermenêutica, que sabemos e aceitamos ser pouco habitual neste tipo de
abordagens. E podem desde já — se
estiverem para aí virados e com vontade de dialética, de especulação e de
confronto de ideias — contraporem e
contra-argumentarem o que quiserem, pois há indícios (e desabafos vários do nosso
autor, espalhados pela sua imensa e rica epistolografia, e não só) pouco
considerados até agora que podem (e a nosso ver é esse o caso) proporcionar
abordagens, perceções, hermenêuticas, leituras e entendimentos diferentes e mais
ousados. É um facto que estamos perante um autor com um legado diversificado e
riquíssimo, uma obra e vida (mundividência) eclética e polissémica (daí a nossa assumida especulação), e, tudo isto,
pode e deve proporcionar — assim esperamos e desejamos — diferenciadas
abordagens e compreensões da sua obra que nos permitem também, e já aqui, elencar
um conjunto de temas pelos quais ele tinha — de facto, é claro, em nosso
entender, e tal compreensão e perceção do autor só a nós nos vincula — grande curiosidade
e bastante interesse (que não apenas no sentido de os refutar, mas, a nossa
ver, também e sobretudo, no sentido de os integrar no seu pensamento e poética
em geral, tais como: paixão e interesse pelo Budismo (o famoso poema “Nirvana”,
entre outros); paixão e interesse pela ideia e conceção do “Eterno Retorno” à boa
maneira helenística; paixão e interesse pela Reencarnação/Metempsicose e afins
(o sentido da Morte que tanto perturbou e inquietou o poeta e o filósofo); a
Filosofia da Religião e, muito provavelmente, acreditamos nós que nunca deixou
de ser crente, desbravando, idealizando e construindo um “Deus” peculiar, o seu
“Deus”, um “Deus” anteriano que por descobrir e compreender ainda está. Tivesse Antero vivido mais tempo
nesta reencarnação, e mais tempo tivesse tido para refletir, escrever e
publicar/partilhar, estamos em crer que esse Antero [com mais tempo de vida] se
iria aproximar bastante da compreensão que dele arriscamos e ousamos ter e que,
sem receio, partilhamos aqui, sobretudo como um despretensioso exercício
intelectual/filosófico e literário, talvez místico (pois é desse “nosso” Antero
que mais gostamos e é sobretudo esse que queremos enfatizar, problematizar, argumentar,
também provocar, inquietar e “dar a conhecer” um pouco mais). Bem sabemos que
Antero foi, por excelência, o insatisfeito, o desassossegado (que inspirou Pessoa
e mais uns quantos), o atormentado, o inquietado e inquietador, o disruptivo e o
provocador por excelência… Tenhamos nós a coragem de seguir este seu exemplo,
pois sabemos que o considerado inovador, criativo e grandioso, só acontece, se revela,
dá a conhecer, a partir — e com — estas
características típicas dos génios. Pasmem-se à vontade, contra-argumentem, desmintam,
critiquem, apontem erros, precipitações hermenêuticas, lacunas e falhas, mas
saibam caros leitores desta coisa que a interpretação e compreensão de Antero
não está acabada (nem nunca estará — pois tal coisa [ser fonte inesgotável e
encontrar-se sempre coisas novas para interpretar e fruir] é apanágio dos
escritores e dos criadores geniais —) e é por aí que queremos ir, pois é este
Antero que nos trouxe até aqui: à disrupção estética-literária-poética-“mística”-filosófica
bem como ao combate ao “Pensamento único”. Tal como Antero, sejamos nós (todos,
todos, todos… - sei que está na moda), combatentes do “Pensamento único” que
anda cada vez mais por aí como se fosse uma praga. É também nisto que reside o
encanto deste diferenciado e peculiar autor. A nossa
perceção/interpretação/hermenêutica de Antero é, sabemos bem que sim, algo heterodoxa,
arriscada, não consensual, talvez pouco
ou nada académica (e o que é isso?!), mas, graças a “Deus” (ao nosso, que, até
certo ponto, é parecido com o “Deus” de Antero), livre, ousada, corajosa, diferente,
talvez-criativa, disruptiva “porque-sim”. Se quiserem continuar a fruir, a compreender
e a interpretar Antero como até aqui, tal atitude não é má de todo, pois fazem muito
bem, e estejam obviamente à vontade, pois quem somos nós para vos contrariar (?!).
Contudo, contrariem-nos!
2.
Este “texto” (Avulsas Impressões), “conceito muito nosso” —
talvez uma espécie de para-ensaio para um novo subgénero literário ainda por
nascer —, pretende ser também, qualquer coisa parecida com uma introdução/prefácio/nota/enquadramento
a esta obra. Não é nossa intenção — apenas e só — recordar, compreender e
partilhar a extraordinária vida (mundividências, idiossincrasias, pensamento
filosófico, poético, sociopolítico, ético e afins, experiências, conflitos
intelectuais, análise de tertúlias, causas nobres e desideratos vários do
autor), mas, isso sim, e sobretudo, a partir do crescente impacto da sua obra,
do conhecimento e investigação do extraordinário legado de Antero, e também com
o óbvio contributo dos posteriores desenvolvimentos e interpretações dos seus
“discípulos”, investigadores e admiradores, possamos empreender — quiçá, e sem
receio de o assumirmos —, um renovado e ousado olhar (que possa ser mais
abrangente e claro) tornado possível com outra Luz que possa “iluminar” agora o
que até antes esteve no escuro. Assim, com e pelo apoio de uma renovada orientação,
aceitamos e incluímos na reflexão, necessariamente, a influência das nossas experiências
e sensibilidades místicas e espirituais, as nossas idiossincrasias, as nossas mundividências,
e, tendo em conta também a nossa compreensão e aceitação da “condição humana” —
com tudo o que isso implica e possa significar e que nunca é o mesmo para todos
— ousamos e permitimo-nos uma outra compreensão do genial autor.
3.
“Olhar” Antero a partir de hoje é enriquecer a
Alma com a compreensão, a hermenêutica e a interiorização
de temáticas, situações e ideias (bem como ideais) que continuamos a considerar
pertinentes e essenciais, e, também a partir daí, poder — com o entusiasmo (“o
tal Deus dentro de nós…” que Antero quase sempre demonstrou ter) possível — motivar/galvanizar uns quantos (de
preferência muitos), nem que seja de forma muito básica e avulsa, e também de
forma despreocupada, coloquial e informal (como se tivéssemos todos — em jeito
de tertúlia — sentados na esplanada de um qualquer café de ambiente nem sempre sereno
nem calmo a conversar sobre os grandes temas, ideias, preocupações,
expetativas, causas, propósitos e desideratos da aventura poética, filosófica,
estética e também política do grande Antero de Quental), para uma mudança que
se impõe cada vez mais como necessária nestes nossos conturbados e estranhos
tempos a fim de que possamos conseguir desenvolver, e, se possível, concretizar,
as nobres, tão necessárias e tão atuais como nunca, causas do poeta-pensador ou
do pensador-poeta. Assim sendo, eis o nosso singelo e singular propósito com a
apresentação deste “texto”: não fazer — de todo — (porque já existem alguns e
bons, apesar de, lamentavelmente, pouco
conhecidos e divulgados) mais um pequeno ensaio sobre a vida e obra (legado
praticamente desconhecido para a maioria de nós) de Antero, mas também e
sobretudo, “mesclar” e partilhar livremente — sem grandes preocupações de
fundamentação académica e afins — o que
mais nos tem tocado e sensibilizado (perturbado e inquietado) desta personalidade
tão intensa e revolucionária após alguma pesquisa realizada (muito pouca), e
que, assim esperamos e desejamos, a partir desta obra “de culto”, também algo pedagógica,
que a Colibri teve a coragem de dar à estampa, possa ela trazer mais leitores à
fruição e compreensão de Antero, autor tão injustamente esquecido e que é
urgente reabilitar, especular e problematizar cada vez mais. Pode — para alguns
— parecer estranho, e até talvez algo romântico, sabemos que sim, mas
considerando-nos nós — sem receios, sem “peias nem rodriguinhos” — um para-poeta,
um para-filósofo e um místico de pendor filosófico-almífico (palavra
nossa que podem passar a usar sem problema, pois já não é — como foi — do nosso
léxico privado), queremos acreditar — e desejar — que privaremos com o grande
Antero de Quental — oxalá que seja mesmo daqui a muitos anos, pois queremos
continuar muito mais tempo por cá… — numa próxima reencarnação (deixa lá de
fazer essa cara de espanto e de estranheza que mais parece “embirração”, pois
tudo é possível). Talvez com a ajuda da “mão de Deus” isso se possa mesmo concretizar.
Oxalá!
4. Tal como Antero, Eça de Queirós (Escritor e Diplomata Português – 1845-1900, admirador, grande amigo e confidente de Antero) e mais uns quantos, que facilmente se podem identificar, pesquisar e conhecer melhor (o que se recomenda), também nós sentimos pertencer — ainda e com eles, incluindo a doce boémia… — ao irónico e desconcertante “Clube dos Desiludidos ou Vencidos da Vida”. (“Vencidos da Vida” é o nome por que ficou conhecido um grupo informal formado por personalidades intelectuais de maior relevo da vida cultural portuguesa das últimas três décadas do século XIX, com fortes ligações à chamada Geração de 70. (…) O grupo reunia-se para jantares e convívios semanais no Café Tavares, no Hotel Bragança ou nas casas dos seus membros, tendo-se mantido ativo entre 1887 e 1894. Os Vencidos da Vida foram definidos pelo escritor Eça de Queirós — um dos seus membros tardios — como um grupo jantante. O grupo assumia o carácter de uma sociedade exclusivista, congregando vultos da literatura, da política e frequentadores das rodas mundanas e aristocráticas. Fonte: Wikipédia). Eles — Antero, Eça e mais uns quantos, figuras marcantes da nossa Cultura, Literatura, Política e Sociedade da época — que aqui destacamos como notáveis e “influencers”, entre outros, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, e que, à sua maneira, conseguiam influenciar o rei (primeiro D. Luís I e depois D. Carlos I). Encontravam-se para jantares e convívios semanais, congregando figuras da literatura, política e sociedade aristocrática. Entendemos este dinamismo Cultural, artístico, literário e político da época — a esta distância temporal — como um bom estímulo, um exemplo a seguir hoje, uma mais-valia, um estar a caminho para…, um acelerador de curiosidades…, uma Escola de Pensamento Crítico. Partindo do princípio que muitos de nós estão centrados e admirados com a fecundidade, a diferença e a peculiaridade da proposta poética, sociopolítica, ética, cultural e filosófica de Antero, e daqueles com quem ele privou, também com ele e amigos já referidos, e por eles inspirados, buscamos e desejamos uma melhor qualidade de vida com mais encanto, magia, significado, sentido, e ansiamos, tal como eles, pelo Absoluto, pela Luz, pelo Transcendente, pela Eternidade… E repetimos — como se fosse um mantra — este derradeiro desejo (e que possa ser em coro para ser mais forte e intenso) com Antero: «Só me falta saber se Deus existe». E que Deus é esse? O “Santo Antero” vai-nos dando algumas pistas, mas provavelmente, esse procurado e tão ansiado “Deus”, afirma-se de certo, em cada homem e mulher, pelo Humanismo, pela vivência do Amor, pelo trilhar do Bem e das Artes, pelo Conhecimento, pela busca da Verdade (que pode ser muitas coisas e coisa nenhuma), pela poeticidade da vida (a nível não apenas intelectual, mas também como experiência moral e ética, estética, emocional, tudo isto tido como essencial e que devia ser mesmo considerado, acima de qualquer outra coisa, nesta reencarnação em que estamos). Já nos referimos em cima à relação de amizade e proximidade do nosso Antero com Eça, e queremos enfatizar a imensa consideração humanista e intelectual mútua, e informar que, muito provavelmente, um dos próximos livros desta coleção poderá ser para celebrar o também extraordinário legado de Eça de Queirós, considerado um dos mais importantes ou mesmo o mais importante romancista, crítico e comunicador português. Como é sabido, Eça admirava profundamente Antero, considerando-o um homem de “sumo génio poético” e de “suma razão poética”, e bem sabemos que o original, o frontal, disruptivo e diferenciado “fazer literário” de Eça tem a boa influencia da poética e do pensamento de Antero (sabemos que alguns vão dizer que não será bem assim, mas não importa). Foi Eça que numa frase paradigmática, significativa e lapidar, caracterizou — com letras de oiro — o nosso homem: «um génio que era um santo”. Dizer também, e ainda, pois este nosso despretensioso e singular “texto” tem — ou pretende ter — também uma dimensão didático-pedagógica, que o nosso Antero foi um dos fundadores do famoso “Cenáculo”, uma espécie de grupo literário que se realizava em Lisboa e ao qual pertencia também Eça de Queirós. Discutiam, refletiam, especulavam e sugeriam, de forma bastante peculiar e diferenciada, ideias, assuntos e situações sociais e políticas que consideravam essenciais, acabando por influenciar — de forma bastante criativa e inovadora — a intelectualidade portuguesa da época e até o rei, alguma aristocracia e os políticos em geral. Indiscutivelmente, Antero e Eça, são duas figuras marcantes, significativas, e, por isso, merecem o nosso respeito, a nossa consideração e todas as apologias e celebrações (sendo o nosso melhor tributo, o conhecimento, a leitura, a compreensão e a fruição da sua extraordinária e peculiar obra/legado).
5. Lembrando aqui a saudosa Natália Correia (Escritora, dramaturga e poeta portuguesa – 1923-1993 que muito nos orgulha), também ela nascida na bonita e inspiradora ilha de S. Miguel nos Açores (Ponta Delgada), e com quem tivemos o gosto, a honra, o privilégio e o prazer de termos privado e convivido algumas vezes nos seus últimos anos de vida (em Lisboa e não só), também ela uma conhecedora exímia de Antero e por quem nutria imensa consideração intelectual, filosófica e poética, tendo divulgado e promovido como ninguém o seu legado; dizia ela que Antero é um ser “dicotómico”, um homem do duelo (mais consigo do que com os outros), um ser simultaneamente apolíneo e dionisíaco. Antero foi, por excelência, o revolucionário, o idealista, o defensor de um certo socialismo que se queria puro, perfeito, contudo impossível (“Socialismo utópico”), o panfletário, o inquieto, o insatisfeito, o irrequieto, o polemista, o “escritor de cartas” (pois grande parte do seu pensamento é evidenciado na epistolografia que apurou e desenvolveu como uma espécie de “género literário maior” durante toda a sua vida), o também contemplativo, aquele que tendo chegado intelectualmente a uma “plenitude” e espécie de Nirvana, se colocava sempre a caminho de um outro Nirvana… (pois, como bem nos lembrou o poeta espanhol, pertencente ao Modernismo, António Machado (1875-1935), «o caminho faz-se caminhando»). E os caminhos continuam por aí à espera de serem cuidados, limpos, alargados, embelezados e, sobretudo, percorridos. Apoiados na bengala de Antero, tenhamos a ousadia e a coragem de os trilhar.
6. Eis Antero: guerreiro-humanista-da-paz-e-do-Bem, à sua maneira, defensor e cuidador da Alma do Mundo. Saibam bons leitores deste “texto”, de uma vez por todas, que o Belo, o Bem e a Justiça, são uma e a mesma coisa. Eis Antero: o “idealista combativo”, o ousado e corajoso impulsionador e mentor da “Questão Coimbrã” («que foi uma célebre polémica literária que marcou a visão da Literatura em Portugal na segunda metade do século XIX» − Wikipédia), berço e ponto de partida para a reflexão renovada, para a crítica construtiva, para o debate e para a síntese de grandes e necessárias questões (temas-problemas) que verdadeiramente interessam à humanidade, pois, o país como estava, não podia assim continuar. Que possamos nós seguir este exemplo e que grupos literários-artísticos, tertúlias e encontros regulares possam nascer e crescer também no nosso tempo a bem do desenvolvimento intelectual, a bem do desenvolvimento do “espírito crítico” e também como “quartel” que se quer bem equipado para o combate ao “Pensamento único”. Fica o desafio. Eis Antero: o idealista mais puro, mas também o homem de ação, o político culto (que rareava à época, tal como também nos dias de hoje), o “Antropólogo”, o “Sociólogo”, o “Teólogo”, o Filósofo, o também jornalista, divulgador e anunciador de grandes ideias e personalidades a conhecer, o exímio Poeta/Sonetista que engloba e sintetiza tudo o que antes se afirma.
7. Destacamos também, neste despretensioso, informal, inquieto e provocador (tão livre quanto possível) “texto”, a aventura/demanda de Antero (o seu percurso de vida, as suas idiossincrasias inovadoras e criativas que nos continuam a confrontar e a inquietar ainda hoje e sempre) a caminho do Absoluto, da Luz. É essencial para os nossos dias o conhecimento de Antero: as razões e causas do poeta, do filósofo e do “talvez-místico”, também o ascético, o racional, o emotivo, o inquieto e irrequieto, o insatisfeito, o “demolidor-pacifista”, o defensor do Bem, do Belo e da Justiça, isto é, do Amor. («O Universo só dura pelo bem que nele se produz. Esse bem é às vezes poesia e arte. Outras vezes é outra coisa. Mas no fundo é sempre o bem e tanto basta». (ANTERO DE QUENTAL, Cartas II (1881-1891) – Organização, introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa, 1989, Universidade dos Açores, Editorial Comunicação).
8. A busca por “Deus”, que é e não é o mais importante em Antero(?!), o Ser ontológico por excelência, ainda que para muitos Absurdo («o Ser, sob todas as suas formas, é um absurdo. Mas pode isto ser assim?» (Questiona e questiona-nos Antero). A abordagem metafísica, ontológica, ética e até estética do Ser, que em Antero é muito mais do que a semântica herdada dos gregos, consubstancia-se necessariamente na demanda pelo Divino… (que não é — de todo — o “Deus” tradicional”). O impacto perturbador do Transcendente (mesmo quando na maturidade de Antero ele é provisoriamente negado, há um Deus dentro do filósofo-poeta que se renova a cada dia e que transporta no seu conceito toda a tradição e investigação filosófica, antropológica, teológica e artística da humanidade, e ao qual Antero acrescenta uma curiosa e apelativa “mística” que é só dele). Antero, tal como alguns de nós (temos razões para crer que será a maioria), vivemos, acreditando que tudo fará sentido (negando o Absurdo), pois estamos de etapa em etapa a caminho da Beleza (isto é, do Bem e da Justiça, do Amor, que se unificam a cada compreensão séria e autêntica das nossas vivências/experiências/mundividências). Sabemos que a Vida — existencialismo à maneira de Sartre — (esta reencarnação para alguns e para nós) está carregada de Absurdo, mas há uma dimensão de Antero — que nos motiva/galvaniza/inspira/orienta — que confere Sentido através da Morte (e é aqui que — muito provavelmente — estará a compreensão e aceitação da Eternidade). O sentido da Vida reside na consciencialização, descoberta, preparação e aceitação da Morte. Desafio para todos: vamos pensar nisto no próximo fim de semana.
9. A inquietação e a insatisfação permanente do poeta-filósofo, bem como a desilusão e frustração pela falta de soluções sociopolíticas e éticas por quem de direito, e ainda a sua crescente revolta derivada em grande parte pela constatação da indignidade e inércia [por parte de um país inculto, ignorante, injusto, retrógrado e obtuso que não valoriza quem deve valorizar] bem como da falta de reconhecimento (um país e um povo que pouco valorizava o Conhecimento e a Cultura — e hoje não estamos muito melhor —), provocaram e contribuíram para um provisório “Fim” por decisão — que entendemos de intelectual e mística — mas “esclarecida” do autor. Para nós, Antero é eterno, e continua nos nossos corações e nas nossas mentes, pois tal como ele, estamos também — cada um à sua maneira, e por ele inspirados — em busca do tal Absoluto bem como da Luz sublime e única que ilumina a Eternidade.
10. A situação do país e do mundo — à época — era também uma das suas preocupações, e, querendo ser parte da solução, inspirado pelo que de melhor se fazia na europa e no mundo, bem como imbuído por sentimentos de solidariedade e de partilha, inicia uma revolução intelectual, política, social, ética, filosófica e poética, também em busca do “espírito moderno” onde cabe a inovação, a criatividade, o pensamento crítico por excelência e a coragem e ousadia de olhar (a fim de reparar/arranjar/reorganizar) as “coisas físicas e metafísicas” (a Vida e o Mundo) de outra maneira, pois o que melhor caracteriza o nosso Antero é a disrupção que bem usou e dominou como uma espécie de “metodologia sagrada”, mas tal coisa tem em vista (como grande objetivo) a organização e estruturação da nossa Vida com Bem/Beleza/Justiça. Sejamos também capazes, tal como ele, de “aceitar”, de consciência o mais esclarecida possível, que a Vida (esta que conhecemos e experienciamos até à Morte) é impermanência, é efémera, que percorremos o Universo em sucessivas reencarnações até à purificação e à plenitude total. Tal como para Antero (arriscando mais uma vez uma certa — tão nossa — e livre interpretação do autor), que a Morte possa ser entendida como um novo e renovado Princípio, pois o “Fim” não existe. («Em demanda até ao fim / pois o Fim não existe. / O que há nunca nos basta / e o que parece não haver, / talvez seja o recheio / de outros Mundo(S) / por conquistar» - in “Do Princípio e do Fim” de Ângelo Rodrigues, Edições Colibri, 2022). Ainda a propósito do já referido, partilhamos um provérbio Chinês — muito do nosso agrado, mas talvez desconcertante para alguns — que diz o seguinte: «se tu acreditas, as coisas são como são; se tu não acreditas, as coisas são como são». (Estamos em crer que o nosso Antero também aceitaria o que é dito e estaria de acordo). Quer aceites, quer não, o nosso autor teve um “fraquinho” pelo Budismo.
11. Da crença até à Dúvida (metódica, hiperbólica, radical, sempre provisória — até certo ponto muito semelhante à aventura Cartesiana — Descartes – Filósofo – 1596-1650), inicia um caminho que é — no bom sentido do termo — uma espécie de delírio e de deslumbramento (poético, filosófico, “místico”, social, ético e até político, sobretudo pelo ideal do “Socialismo utópico”). Antero pensa, critica e especula o Mundo e a Vida com as “ferramentas” proporcionadas pelas musas Poesia e Filosofia (admirando, considerando e incluindo também teorias e homens de Ciência que segue, investiga e admira), mas as musas que mais preza são a Metafísica e a Ontologia. E perguntamos: e a Razão? E essa coisa a que chamamos Verdade? E o Sentido? Tudo em Antero é isso mesmo: a permanente busca pelo Sentido. Foi também um combatente da Imbecilidade e da Ignorância humanas (como também nos ensinou e recomendou o grande Platão — Filósofo grego do Séc. IV A.C — que certamente estará em grande convívio intelectual com Antero pela eternidade fora). Quando lá chegarmos [ao dito convívio], o que se espera e deseja que seja ainda muito demorado, vamos querer estar com estes dois e com mais uns quantos em tertúlia sem fim.
12. E o que dizer das mais ou menos famosas e inovadoras “Conferências Democráticas do Casino”? Antero parece não conhecer assim tão bem o pensamento de Karl Marx (filósofo, economista, historiador, sociólogo, teórico político, jornalista, e revolucionário socialista alemão – 1818-1883), mas conhece e admira o filósofo, o também político e economista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), cujo trabalho, ideias e ideais segue, e que, tal relação e cumplicidade, acabam por estruturar o seu pensamento político, social e também filosófico. Podemos dizer que Antero era um idealista apaixonado por Proudhon (grande figura e inspiração do século XIX – galvanizador e arauto de novas e arrojadas ideias), uma espécie de “paladino”, qual “cavaleiro andante” do intelecto esclarecido e curioso que muitos inspirou e que facilmente criou discípulos e fãs. Assim sendo, e tendo em conta esta “boa influência” em Antero, este contribuiu como ninguém, para o desenvolvimento de uma consciência política diferenciada fazendo notar e enfatizando (obrigando a refletir) as contradições e as assimetrias da sociedade do seu tempo. É caso para dizer que precisamos, também hoje, e com máxima urgência, de um outro Antero (não precisa de ser tão “santo” como este) que saiba interpretar e apresentar soluções para este nosso tempo conturbado, apressado, confuso, pouco ético, delirante, algo caótico, mais preocupado com o Ter do que com o Ser.
13. Como sabemos, pois as fontes vão sendo disponibilizadas, e, sem desculpas, só quem não quer saber é que não sabe, as “Conferências do Casino” são sobretudo, e particularmente, animadas sessões mais ou menos livres onde proliferavam — com riscos assumidos — as críticas ousadas e corajosas à dita “sociedade liberal portuguesa” (que, segundo Antero, tal conceito – Liberal (Liberalismo é uma corrente política e moral baseada na liberdade, consentimento dos governados e igualdade perante a lei) – foi – como ainda se revela ser hoje, até certo ponto, altamente mal interiorizado e compreendido. Sendo Antero um homem com alguma coerência (apesar de — como já se aludiu — poética e filosoficamente contraditório e disruptivo), também bastante curioso e desbravador, como se impõe a um pensador de excelência, e respeitador de outras ideias, que não apenas as suas (mente aberta e muito à frente do seu tempo), procurou, de forma eclética, estruturada e holística (palavra muito abusada, mas que aqui faz sentido…), compreender praticamente tudo o que devia ser considerado de mais importante e de essencial do seu tempo. Ele foi não apenas o visionário, mas também o arauto dos novos tempos; foi moderno, “futurista” e contemporâneo, muito antes de termos tido conhecimento “oficial” destes enquadramentos e registos da história. Antero, como já se fez notar, foi um idealista, um crítico do Romantismo, mas ele próprio foi um romântico muito peculiar, mas também o homem do concreto, da ação, da dinâmica, aquele que defendeu como ninguém, a causa e os propósitos dos trabalhadores mais pobres, do operariado (sempre em evidência numa indissociabilidade quase desconcertante), pois ele mesmo foi em simultâneo, o homem comum, o operário, o intelectual, o escritor, o político, o democrata, o “socialista-utópico”, o também Liberal (muito à sua maneira − e que não vos pareça contraditório, pois o dito Socialismo de Antero foi — quanto a nós — uma espécie de Liberalismo, e que os investigadores puritanos de Antero nos contrariem à vontade, pois há que assumir e arriscar novas interpretações e esta, tem muito que ver com a semântica anteriana que encontramos em ambos os conceitos) de mãos dadas com o filósofo e com o poeta. No fundo, e a destacar acima de tudo, Socialismo e Liberalismo são — em Antero, e sem receio de contraditório — sinónimos de Humanismo, de ativismo solidário e cultural bem agregados ao filósofo político ativo e dinâmico (ora socialista, ora liberal, ora nem uma coisa nem outra, ora…), mas, acima de tudo, e mais importante, o social e o liberal de Antero encontram-se tantas vezes ao longo da sua vida no lutador pela causa suprema da Felicidade (que necessariamente se traduz em Amor, isto é, o mesmo que dizer: Bem, Beleza e Justiça).
14. O famoso artigo/ensaio — inicialmente pensado para ser publicado em quatro partes — e escrito propositadamente para a revista “Portugal” (“Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX” − 1890), fundada e dirigida por Eça de Queirós, teve algum impacto e reconhecimento na época de Antero, tendo em conta a qualidade, a inovação e os argumentos defendidos; e esse impacto foi crescendo até aos nossos dias; contudo, o essencial e a relevância do seu legado relacionado com a Filosofia/Pensamento está disperso, (e tal coisa tem a concordância, praticamente por unanimidade de leitores e de investigadores de Antero) em cartas muito peculiares (dirigidas a vários amigos e a personalidades que admirava e considerava) e, particularmente, nos seus sublimes e inigualáveis Sonetos. (Há nos Sonetos de Antero obviamente ideias — sensibilidades peculiares — e especulações poéticas de vária ordem, mas encontramos também sonetos que são como que para-ensaios filosóficos sendo que o soneto constituiu também um extraordinário e inovador veículo de partilha filosófica). Podemos dizer (e que os investigadores e estudiosos mais puritanos e ortodoxos de Antero nos perdoem mais uma vez se de tal coisa discordarem), que o nosso homem — aqui singelamente homenageado nesta espécie de “reflexão” — foi o “poeta da Filosofia”, e, apesar de alguns desabafos do autor, que parecem ir em sentido contrário, diremos sem peias, livremente, e aceitando o “sacrifício pessoal”, o seguinte: a Filosofia precisa cada vez mais da Poesia e vice-versa. Só é possível Filosofar com autenticidade e verdade com a preciosa ajuda da musa Poesia. Ele mesmo confessou a um dos seus amigos, em carta bem apaixonada, sentida e corajosa, o seguinte: «aquilo que mais importa [o seu legado] e o que deve realmente ser considerado para a posteridade — acima de qualquer outra coisa — são os meus sonetos». Lendo, relendo e fruindo os Sonetos de Antero, tocamos a Divindade, a Luz, o Absoluto, e somos — obviamente que uns mais do que outros — também contagiados e orientados pela Liberdade, pelo Amor, isto é, pela Beleza, pelo Bem, pela Justiça. Se de facto te quiseres humanizar, frui, compreende e interioriza a mensagem dos sonetos de Antero! Os sonetos são também — mas não só — uma espécie de derradeiro “ensaio filosófico-existencialista” sobre o essencial: a Vida e a Morte. Assim, o grande legado, a obra por excelência deste diferenciado escritor, poeta e intelectual português intemporal (incluindo a política, a “Mística/Teologia” e a Filosofia) reside particularmente nos seus maravilhosos e diferenciados sonetos. Recomenda-se a leitura atenta de “Sonetos Completos” (publicados pela primeira vez em 1886).
15. Antero, tal como a maioria de nós, buscava a coerência e a harmonia, mas foi contraditório em sua experiência de vida e também na sua obra. Ser contraditório é bom? É. E estamos em crer que a força, o brilho e a pujança do seu legado, reside nessa contradição, pois, também um pouco à boa maneira de Hegel (Filósofo Alemão – 1770-1831), corroborado pelo grande, sábio e peculiar Nietzsche (Filósofo, também poeta e Filólogo Alemão – 1844-1900), e já antes bastante afirmado e divulgado pelos gregos clássicos (que não apenas Heraclito de Éfeso – Filósofo Grego pré-socrático), a busca pelo Sentido da Vida e pela compreensão da Morte, começa — e talvez acabe — com e pela dialética dos contrários (Tese e Antítese que produz a Síntese; Apolíneo e Dionisíaco; Bem e Mal; Ódio e Amor… − Queiram fazer o favor de continuar esta lista infinita).
16. O poeta-místico e atormentado que realizou o “caminho do Desassossego” em busca da Luz, é, como já referido, o também poeta-filósofo que foi ainda, altamente influenciado pela tormenta da sua doença (Neurose/Psicose/Esquizofrenia…?!), um desbravador e curioso da Mente humana (também nesta área à frente do seu tempo). Foi um homem de Fé, e, ao “perder” esta, que efetivamente nunca perdeu, (pois são afirmações que vão ficando de investigadores, pesquisadores e biógrafos a nosso ver demasiado ortodoxos) perdeu, isso sim, alguns dos seus “mecanismos de defesa do Ego” (qualquer coisa que a Psicanálise talvez possa explicar melhor). À semelhança do que se fez relativamente a Fernando Pessoa(s), — Saraiva, Mário (1990) “O CASO CLÍNICO DE FERNANDO PESSOA” — recomendamos que alguém se aventure na investigação e publicação do “Caso Clínico de Antero de Quental”, pois, se for um trabalho bem feito e fundamentado, ficaremos mais esclarecidos, agradecidos e iluminados (ou não) sobre a vida e obra deste grande poeta, filósofo, talvez-místico e para-“teólogo” português. Fica a sugestão, e mãos à obra! Mas, ainda assim, estamos em crer que, tal coisa, o suposto “Caso Clínico de Antero de Quental”, foi uma mais-valia, pois produziu o génio. Estamos em crer que, para se revisitar e compreender Antero, com verdade e autenticidade, temos que ser tão ou mais heterodoxos do que ele foi. Sabemos bem que a genialidade do ser humano reside nas “mentes heterodoxas”; para muitos, imperfeitas (isto é, mentes que não são iguais à grande maioria das mentes dos outros seres humanos). Antero viveu em conflito permanente… viveu entre o Ser e o Não-Ser, a Crença e a Descrença, mas sempre como um “nobre cavaleiro andante” em busca do Graal, o mesmo é dizer, do Sentido (que supostamente encontrou na Morte e que o levou à Eternidade).
17. O tal Deus que — para alguns exegetas da nossa Praça — Antero “deixou de acreditar”, acabou sempre por estar com ele até ao “Fim”, e, muito particularmente, a suposta — nunca totalmente assumida como bem se conclui a partir dos seus Sonetos — descrença em “Deus”, não é mais do que uma renovada e fortalecida crença, mais intensa, extraordinária, maravilhosa, mais… (Diz-nos ele num dos seus muitos desabafos epistolares: «O Transcendentalismo — somos nós que assumidamente incluímos neste conceito Deus — tem de ser restaurado, de um feitio ou de outro. Só ele pode satisfazer, ou, pelo menos, iludir e entreter as desmedidas aspirações, as ambições e esperanças incorrigíveis do coração humano.» (ANTERO DE QUENTAL, Cartas II − 1881−1891 − Organização, introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa, 1989). Assim, o “Deus” do “Santo Antero” é o Amor (Bem, Justiça e Beleza), e é sobretudo isto que deve habitar o coração do Homem como ele nos ensinou. O ideal “Deus” é também o Uno (com a semântica do Religare), que é uma das dimensões do Absoluto, isto é, do Eterno, que não é só um ideal, mas que deve ser o Destino supremo (voltar ao Uno-que-é-Deus), e para sermos dignos da humanidade, temos que fazer o “Caminho do sagrado” com coragem, ousadia e conhecimento. Assim, para sermos dignos da nossa humanidade (e muito que há a dizer sobre a Ética e a Moral em Antero, que se deixou influenciar também por Kant, mas vamos deixar isso para outros) e para conhecermos e melhorar essa coisa da “condição humana”, há que trilhar o caminho com elevação espiritual — com a boa ajuda da Poesia, das Artes e da Filosofia — (voltar à origem mais pura) a fim de se atingir o Nirvana («o Buda Sidarta Gautama - Sammāsambuddha -, descreveu o Nirvana como um estado de calma, paz, pureza de pensamentos, libertação, transgressão física e de pensamentos, a elevação espiritual, e o acordar à realidade. Alcançando este estado, quebra-se o processo de Samsara ou Sansara - em devanágari: संसार; Saṃsāra − que é uma palavra páli/sânscrita que significa "mundo". É também o conceito de renascimento e "ciclicidade −, interrompendo os contínuos renascimentos.» − Wikipédia) que é a condição por excelência para o Absoluto, para a Plenitude, para a Eternidade.
18. Antero — talvez cansado e farto da incompreensão, da incerteza de quase tudo e também da inércia de muitos dos seus pares e dos vários ignorantes e imbecis da época — acabou por se interessar um pouco — subrepticiamente e com imensa curiosidade — pelo Budismo, particularmente pela ideia de Esperança subjacente ao Nirvana (e não iremos agora especular mais nem sobre o Budismo nem sobre o Nirvana, mas aconselhamos e recomendamos vivamente a investigação e conhecimento desta apaixonante proposta/filosofia almífica (conceito nosso disponível para ser usado sem problema) e ontológica; e, se vos for possível e útil — após alguma dedicação a este apaixonante assunto —, retirem as vossas próprias conclusões. Por ser também um filósofo, um inquieto e curioso, pois são tantos, são mesmo muitos os caminhos que Antero procura conhecer e experimentar, no fim, mergulha nas águas do Budismo mais filosófico e isso também nos inspira, inquieta e orienta. Bem sabemos que o Budismo não é entendido por Antero — e a nosso ver, bem — como mais uma religião, mas sim como uma “Filosofia de vida” por ele considerada muito interessante, a conhecer e a explorar. Obviamente que o nosso homem não foi budista, mas expressou, em vários momentos do seu percurso intelectual e literário (particularmente nos sonetos), afinidades curiosas com vários princípios, vivências, teses e orientações do Budismo. Para corroborar isto mesmo, sabemos que, numa carta dirigida ao seu amigo, escritor e intelectual Oliveira Martins, com data de 27 de julho de 1873, revelou-lhe, ao que parece, bastante entusiasmado, a sua conceção do Budismo como sendo uma via de misticismo ativo, redentor e a considerar.
19. Tanto que fica por dizer…, contudo, temos que atender e recordar ainda, mais ou menos a terminar, a situação “surreal” do fim desta sua reencarnação terrena. Antero saiu de casa num “dia negro” (mas para órficos, pitagóricos, para Platão — que nos ensina que «morrer é bom» —, para Sócrates e mais uns quantos, foi um “dia feliz”, o dia da grande mudança a caminho da Eternidade); entrou numa loja, comprou um revólver (e ironia das ironias, pois o troco que resultou dessa compra vai dá-lo pessoalmente à sua irmã manifestando uma imensa solidariedade e moral até ao fim); e muito próximo de uma parede onde se lê a palavra “Esperança” em letras bem visíveis (talvez Antero nos esteja a dizer, a lembrar, com algum sentido de humor que também o tinha, que na Morte está a Esperança e a Libertação, e, para nós, como já foi atrás aludido, é mesmo isso que ele nos está a dizer…), acaba — apenas e só — com uma das suas reencarnações. (Sentado num banco do Campo de São Francisco, junto ao muro que fecha a cerca do Convento da Esperança, na cidade de Ponta Delgada nos Açores, dá-se o “Fim”). Consta que Antero disse um dia a um amigo que confiava na Morte, e foi ela que o levou ao tão desejado e doce Absoluto. O “Fim” (a Libertação suprema), crença nossa que defendemos e partilhamos cada vez mais, agora também inspirados em Antero, é um novo “Princípio”. «Morrerei também, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana, e, como diziam os antigos, na paz do Senhor! – Assim o espero.» (ANTERO DE QUENTAL, Cartas II − 1881−1891 − Organização, introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa, 1989). «Dorme na Mão de Deus eternamente!». «Comunhão da Paz Universal (…)». «Morte libertadora e inviolável». Fique também — leitor desta coisa — na “Paz do Senhor”!
20. Contaremos com os autores (de todos os géneros já inventados e por inventar) nos próximos projetos literários que tencionamos publicar, e, para tal desiderato, necessitamos obviamente do seu precioso apoio e participação. Mais uma vez, obrigado pela vossa confiança e dedicação a esta causa que nos parece necessária e nobre. Um grande e renovado abraço do tamanho do Uni-Verso. Muita Paz, Saúde e Amor (isto é, à maneira de Antero, Bem, Beleza e Justiça para todos)!
Ângelo
Rodrigues
(coordenador
e, talvez, crítico literário,
novembro de 2024)









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