16 novembro 2025

EXTRAVASAR – Livro(s) - por Ângelo Rodrigues

1 comentário:

Anónimo disse...

Poderá parecer estranho este ser o primeiro e único comentário e apresentado tanto tempo depois. O tempo tem uma razão: só agora vi o comentário de Ângelo Rodrigues sobre "Anos de Brasa", de que sou autor. Há uma dupla razão para o comentário. A primeira resulta da necessidade de agradecer o comentário. A segunda deriva, seguramente, do facto de Ângelo Rodrigues e o autor não se conhecerem. Porque, se se conhecessem, isso teria evitado ao comentador o exercício de adivinhação sobre a orientação político-partidária do autor. Não sei se essa é a questão mais importante quando se apresenta um livro, especialmente quando se apresenta um autor que deixou bem claro o seu ponto de partida e as intenções que o moveram a escrever o livro. Duvido que seja um aspeto relevante. Mas bom, Ângelo Rodrigues achou que sim. Partiu do princípio de que alguém que escreve com entusiasmo sobre a Revolução de Abril, que até se adivinha como ator em muitas das histórias, tenha que ser alguém que se dedica a fazer a apologia acrítica da Revolução. Uma leitura mais demorada do livro mostraria que não, que há tudo menos uma visão apologética e acrítica do processo revolucionário. Basta começar com o primeiro conto - "Se tivesse durado mais algum tempo". Se tivesse durado mais algum tempo aquelas mulheres não teriam continuado analfabetas. Aprenderam a escrever o seu nome, é certo. Mas foi pouco. E uma delas diz assim para outra: "eles (os da alfabetização) não vinham cá por nós, sabes?". A Revolução não foi nenhum templo paradisíaco. E o autor de "Anos de Brasa" sabe bem disso. Também não ignora o tempo único em toda a História da contemporaneidade portuguesa que foi a Revolução de Abril. Mas para saber disso basta-lhe ter aberto os livros, ter deixado correr o tempo, ter explorado as memórias de todos (as suas e as de outros) e experimentar encontrar a verdade na escrita. Não precisou nunca de pertencer a um partido político. Experimentou o movimento revolucionário que veio a desembocar em 1973 e depois em Abril. E bastou. Por isso, caro comentador, o autor não é do Partido Comunista, como afirmou no seu comentário, nunca foi do Partido Comunista e ignora, como todos nós, o que lhe sucederá no futuro. Sem que tal afirmação possa constituir qualquer sentimento de rejeição da política como dimensão central da condição humana. E muito menos qualquer sentimento recalcado de anticomunismo. O autor pensa sim, que tendo sido claro nas intenções, não precisava, por isso mesmo, de ser catalogado. Muito menos com inverdade. Reitero o meu agradecimento pelo seu comentário, em meu nome e no de Maria Helena Pereira, cujo prefácio serviu para apresentar o livro.